CFE 2010: “Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro” (Artigo)
No tempo de Jesus, Mamona era um Deus, era uma divindade dos fenícios. Até hoje muita gente no mundo diviniza a economia. E mais do que a economia, a moeda parece ser um ídolo fundamental. As pessoas fazem qualquer coisa por ela. Então a palavra de Jesus é: não se pode ser servo, não se pode servir a dois senhores, a Deus e a Mamona. Mamona quer dizer deus dinheiro, ídolo dinheiro. É uma afirmação muito clara, muito nítida, muito correta e muito atual.
O dinheiro foi criado para servir às relações comunitárias. Antigamente, se eu tivesse feijão e você tivesse arroz, eu trocaria o meu feijão pelo seu arroz. Em um determinado momento se criou a moeda, e a moeda é um valor simbólico. Tanto eu que quero arroz compro com a moeda, quanto você que quer feijão compra com a moeda. Não é mais uma troca entre produtos. Então a moeda nunca poderia ser senhor de ninguém. Ela é justamente o contrário, está aí para servir ao ser humano e à humanidade. Nesse sentido, a gente não pode absolutizar nada. Tudo o que é absolutizado se coloca no lugar de Deus. Só Deus é absoluto.
O que é a fé cristã? É uma maneira de viver a vida, de olhar o mundo, de viver e de propor a vida a partir do Evangelho de Jesus. E como é que isso se realiza? Realiza-se justamente numa partilha. Não existe fé cristã se não houver comunhão. E a comunhão não é apenas litúrgica, não é apenas eucarística e ritual, mas ela é uma forma de vida. Portanto, a economia que serve à comunhão é expressão de uma espiritualidade ecumênica e da fé cristã. A economia que, ao contrário de servir à comunhão, serve à ambição humana, ela destrói a comunhão, destrói também a fé e a espiritualidade.
Os índios e as comunidades negras vêm de culturas em que toda a vida da agricultura, todos os elementos da vida são sagrados. Não são Deus, mas são sacramentos de Deus, e por isso não nos pertencem. O índio não é dono da vida, da comunidade, das coisas. E por isso a economia é uma economia de partilha e de reciprocidade em todas as culturas indígenas.
Quando os antropólogos foram estudar a cultura Guarani, o que eles mais perceberam, mais estranharam, foi exatamente essa cultura da reciprocidade. Quer dizer, cada um dá, cada um recebe. Não é um só que dá, cada um recebe. Não é um só que dá, também não é um só que recebe. Dom Hélder Câmara disse: “Ninguém é tão pobre que não tenha algo para dar, nem ninguém é tão rico que não tenha algo para receber”. Então, é uma economia de dom, de partilha e de reciprocidade.


