Crônica de uma páscoa não realizada

Alberes de Siqueira Cavalcanti - Educador
Abril 2008

Mais uma manhã de domingo, não um domingo qualquer. Os muitos carros em frente à pracinha da igreja, o vai-e-vem de fiéis, casa do "Senhor" cheia, denunciam que aquele domingo não é um domingo qualquer, é domingo de Páscoa. Em casa, mesa repleta, família reunida.
Há séculos que os cristãos comemoram a páscoa. Os hebreus há milênios.
Um garoto, sem-nome, sem-casa e sem-futuro, vaga pelas ruas da cidade na manhã do domingo de páscoa. Passa pelas casas. Quantas guloseimas, mesa cheia, família reunida. "Toque, toque, toque...", bate à porta. Pede comida. Mas é domingo de páscoa, a família está reunida. O garoto, sem-nome, sem-casa e sem-futuro, perturba o encontro familiar de páscoa.
O garoto prossegue pelas ruas no domingo de páscoa. Pára num semáforo. Aborda as pessoas nos carros. Mas é páscoa, todas estão apresadas para chegar em casa, para a ceia pascoal. O garoto, sem-nome, sem-casa e sem-futuro, perturba o trânsito. "Bem que o novo Código deveria ter uma punição para garotos que perturbam o trânsito num domingo de páscoa", pensa um apressadinho ao volante.
E o garoto prossegue, passando pelas ruas da cidade. Chega àquela pracinha defronte a igreja. Vê muitos carros, todos bonitos, alguns até importados. Vê muitas pessoas, nem todas bonitas, mas algumas com cara de importadas - parecem que vivem num outro país, lá no hemisfério Norte.
O garoto, sem-nome, sem-casa e sem-futuro, fica na porta da igreja, quer entrar, mas tem muita gente, afinal é domingo de páscoa. Ele até que tenta dar um jeitinho, pois também é brasileiro, mas sente-se constrangido, além de não ter nome, não ter casa e não ter futuro, o garoto não tem roupa adequada para a cerimônia. E ele fede, é maltrapilho. O garoto atrapalha a missa de páscoa.
Há séculos que os cristãos comemoram a páscoa. Os hebreus há milênios... Há séculos que garotos sem-nome, sem-casa, sem-futuro e sem-roupa não têm páscoa. São sem-páscoa.
Mais uma páscoa passou. Aliás, páscoa é passagem. Após a passagem pelo Mar Vermelho, os hebreus que eram escravos no Egito começaram a celebrar a Páscoa, em comemoração pela libertação, a passagem da terra dos grilhões para a terra prometida, "onde corre leite e mel".
Os cristãos souberam dar um novo significado para a páscoa hebraica. Jesus, o Messias, está vivo, ressuscitou. A páscoa passou a ser a celebração da libertação do pecado e a passagem vitoriosa da morte para a vida.
Mas o que significa comemorar a páscoa numa sociedade de mercado? O que é a páscoa no mundo do consumo e da exclusão social? Qual é a passagem que devemos fazer? Libertação do que? A Campanha da Fraternidade desse ano traz como slogan “Escolhe, pois, a vida”. Temos uma tendência a considerar essa escola apenas do ponto de vista pessoal, individual. Eu faço a minha escolha, você faz a sua escolha. Certo, isso é importante! Mas não basta, não é suficiente.
A escolha pela vida deve ser coletiva e isso implica necessariamente a escolha política por uma organização social que consiga garantir a dignidade da vida humana, bem como da vida do planeta como um todo. Certamente essa não é a escolha pela sociedade de mercado. Se queremos escolher a vida, temos que enquanto sociedade fazer a passagem, a saída as lógica de mercado e da organização social que segue essa lógica.

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Educador do Centro de Defesa dos Diretos da Criança e do Adolescente Pe. Marcos Passerini, formado em Filosofia e Teologia, especialista em Comunicação e mestre em Educação.