Ressurreição: a fidelidade de Deus em Jesus - Crer na ressurreição III
Então, para nós que cremos e anunciamos a ressurreição, o que quer dizer pensar na ressurreição a partir de Jesus, o vivo, do qual somos testemunhas? Podemos começar mal e percorrer um caminho errado se nos pomos a pergunta errada: o que aconteceu com o corpo de Jesus? O anúncio da ressurreição não tem nada a ver com a explicação do que aconteceu com o corpo/ cadáver de Jesus.
Os evangelhos são bem divergentes a respeito disso. Essa história é uma história muito mal contada, se fosse um testemunho a respeito do corpo de Jesus. O único ponto que os quatro têm em comum é que havia uma pedra revirada, uma sepultura vazia e umas mulheres (uma, duas, três ou muitas, não se sabe) que foram – ou não foram – dizer ao grupo. Nada mais. Muito pouco para ser um testemunho que se sustente. O que aconteceu com o corpo de Jesus faz parte do passado, também porque este corpo, seja qual e como for, não está mais entre nós, subiu ao céu (voltou a Deus, noz diz a teologia). É como se não existisse.
É preciso ter presente que Jesus não fez ver o seu corpo a ninguém que não fosse já dos “seus”. Não usou o seu corpo como testemunho e deixou correr “até aos nossos dias” o boato que o corpo teria sido roubado e escondido pelos seus discípulos. Anunciar a ressurreição não significa proclamar um milagre, sobrenatural, a respeito do corpo ressuscitado de Jesus.
Como nos outros textos bíblicos, é uma proclamação de fé teológica sobre o “nosso” Deus que não aceitou a sentença do sinédrio, nem aquela de Pilatos, e fez de Jesus o único Kurios perante o qual ajoelhar-nos, e nunca mais dobrar os joelhos diante de qualquer outro, seja ele o sumo sacerdote ou o imperador.
É a proclamação da nossa liberdade total (veja Paulo) de ser eclesia (igreja), uma comunidade leiga (laical), ministerial, igualitária. Se depois a fizeram tornar-se sacerdotal, governamental e hierárquica, é porque deixamos de testemunhar a ressurreição para substituí-la com a imortalidade da alma e com o duplo destino depois da morte. A catequese dos Novíssimos (As Últimas Verdades: morte, julgamento, inferno e paraíso) substituiu o kerigma da ressurreição.
É importante notar que os verbos usados para falar da ressurreição são verbos comuns, com uso duplo: egeiro, anistemi significam levantar-se, levantar, pôr-se em pé, ficar de pé, suscitar. São verbos muito usados também no Antigo Testamento e, em vários casos, para indicar a intervenção salvadora de Deus na história: “Então Javé suscitava juízes, para que libertassem os Israelitas daqueles que os saqueavam” (Jz 2,16).
São verbos que – quando o sujeito é Deus – manifestam a sua fidelidade a uma história que, por isso, se torna história de salvação. A ressurreição de Jesus é a confirmação de que Deus é fiel e mantém o controle da história. O ressuscitado é o filho que Ele colocou em pé pela segunda vez.


