Ética e cuidado sócio-ambiental

"Em nada adiantaria falar em sustentabilidade, sobriedade, reciclagem, sensibilidade ecológica se não houver uma “mutação ética” um novo olhar/comportamento para com a criação..."
Conselho Provincial dos Missionários Combonianos - Província Brasil Nordeste
O passado FSM em Belém voltou a debater com insistência, em numerosas atividades, as grandes ameaças à criação entendida como espaço social, físico, cultural/espiritual em que os seres vivos vivem e se reproduzem. Não era para menos! Os dados mais recentes, longe de qualquer intenção alarmista, nos apresentam um quadro assustador sobre a saúde do planeta e de seus habitantes. Também nesse campo estamos a assistir não meras mudanças das condições sociais e ambientais, mas autênticas mutações. Não meras mudanças climáticas e atmosféricas que provocam novos e imprevisíveis danos à natureza e às pessoas, mas mutações biológicas planetárias. Não é somente o planeta que está doente, mas as próprias pessoas. O planeta está doente porque a espécie hominídea o maltrata e agride sem piedade e por sua vez adoece. É um processo lento de autodestruição coletiva de caráter planetário.
Diante das profundas e recíprocas implicações na relação entre o ser vivo e natureza/criação, o FSM consagrou definitivamente a visão/postura de enfrentar e analisar, simultaneamente, os efeitos da ação humana sobre a criação, e desta sobre o ser humano. Não há como desvincular um do outro. Há uma íntima e indivisível ligação e uma recíproca interferência. Os seres vivos brotam da mãe terra e graças ao sopro divino vivem e se reproduzem. Hoje em dia está sendo superada a visão estreita e parcial segundo a qual a ecologia e/ou meio ambiente é entendido como conjunto amorfo de seres abióticos (clima, geologia...) e bióticos (seres vivos, humanos, animais, plantas...), mas a ecologia é entendida como um espaço de relações sócio-organizativas, físicas, econômicas, culturais que visam produzir integração, harmonia e qualidade integral de vida. Em outras palavras, cuidar do ambiente é cuidar também das condições de vida das pessoas que vivem num determinado ecossistema e não somente de um ou outro bichinho ameaçado.
Nesse sentido, hoje em dia, fala-se preferencialmente em socioambientalismo. Ecologia/meio ambiente deixou de ser um fenômeno circunscrito, um modismo elitista e torna-se o substrato sobre o qual tudo é repensado e planejado. É a vida dos humanos e do todos os seres vivos que está em jogo. Sua sobrevivência, felicidade, realização, bem-estar.
É verdade que todos os humanos somos de alguma forma responsáveis por numerosas agressões e atentados à criação, mas é também verdade que nem todos nós temos o mesmo nível de responsabilidade. Temos que reconhecer que entre nós humanos existem povos que têm cultivado uma relação específica com o seu meio-ambiente. Muitos desses povos atribuem sua origem/nascimento à mãe terra e conservam um profundo respeito para com ela.
A maioria dos povos indígenas originários que habita esse planeta não considera a terra como mercadoria, e tudo o que brota dela ou é guardado em suas entranhas não é visto como algo a ser arrancado e negociado. Hoje, assistimos a inúmeros abusos e agressões contra esse modo de se relacionar com a terra mãe (Pachamama) por parte de outros grupos humanos de culturas diferentes. Muitos estados nacionais em suas constituições ainda não reconhecem e não garantem um território legal para os povos originários (indígenas, aborígenes, quilombolas...) e quando o fazem formalmente, não cumprem, na prática, o que os direitos originais estabelecem. Afinal, são esses mesmos estados que, em nome de um suposto e nebuloso conceito de crescimento e desenvolvimento econômico, se tornam intermediários de grandes grupos econômicos que invadem, assaltam, violentam e sangram as veias e as estranhas da mãe terra. Destroem não só a mãe terra, mas os seus filhos e filhas.
O FSM nos ajudou a compreender que a integridade da criação não é funcional ao ser humano, à espécie hominídea, mas é funcional à vida nas suas múltiplas formas. Ao falar disso estamos nos referindo às cerca de 10 milhões de espécies de seres vivos existentes no planeta terra. Nós humanos somos uma espécie entre elas e todas elas dependem uma das outras. Ao ameaçarmos uma estamos pondo em risco a sobrevivência de outras, e vice-versa.
Nesse sentido é fundamental compreender que temos que passar de uma visão socioambiental centrada exclusivamente no bem-estar do ser humano (antropocêntrica) para uma visão/postura que incorpora o respeito, o cuidado, a ação preventiva e defensiva para com todos os seres vivos (micro-organismos...), ou seja, da vida na sua plenitude e magnitude (biocêntrica).
Temos consciência que se ficarmos só na observação fenomenológica do que ocorre na criação e nos fixarmos só na mera ação política correspondente estaríamos traindo o projeto do Criador da vida. Por quão grande e eficaz possa ser a nossa resposta para amenizar e/ou afastar as agressões em curso contra a criação, se não for alicerçada numa teologia/espiritualidade/mística adequadas e, principalmente, numa nova ética, dificilmente poderemos incorporar novas atitudes e relações para com a criação.
Em nada adiantaria falar em sustentabilidade, sobriedade, reciclagem, sensibilidade ecológica se não houver uma “mutação ética” um novo olhar/comportamento para com a criação. As mutações socioambientais devem corresponder necessariamente “mutações de motivações e de direitos”, de caráter ético, legal, teológico, místico (eco-teologia, ética ecológica, justiça socioambiental...) que nos ajudam a compreender o significado e o alcance profundo das mutações socioambientais e das nossas ações concretas e históricas a serem desencadeadas. Isto deverá se dar de forma sincrônica, recíproca e em permanente conexão.


