Rosas vermelhas
Setembro - Outubro 2009 / Estou voltando do mercado, carregando em duas pesadas sacolas minha compra do mês. Visto que meu único carro é o GOL (Grande Ônibus Lotado), o jeito é levar tudo no lombo, que nem burrinho. Parado no semáforo demorado, olho, com certa inveja, a fila infinita dos carros em sua corrida doida. Esperar ajuda neste mundão da cidade, nem pensar.
Ao meu lado, encosta um cara, com duas rosas vermelhas na mão, com ar sorridente. Não é tão jovem, mas sempre é tempo de ser gentil com uma mulher. Eu fico na minha, bem de olho em minhas sacolas. Ele também mostra interesse pelas sacolas e pergunta “Posso ajudar na travessia?” Minha desconfiança aumenta, mas não posso ser malcriado. Agradeço e continuo calado. Mas ele insiste “Você mora longe?” Respondo que já estou chegando e que vou dar conta. Sendo que o sinal não quer abrir, decido tomar a iniciativa, atacando do lado do cigarro: “O senhor acha que um dia vai parar de fumar? Sabe, eu já perdi amigos fumantes...” Ele não se mostra ofendido e confessa: “Já pensei em parar, mas depois vêm os problemas da vida, vem a depressão...”. Animo-me: “Mas, pelo visto, o senhor vai ter um bonito encontro, com essas duas rosas vermelhas!” “Nada disso; sobraram da minha venda.” “Vendeu bem?” “Vendi cinco. Para mim está bom. Estas são para minha esposa”. “O senhor mora longe?” “Não. Naquela casa logo do outro lado”. Olho na frente e reconheço a casa bem pobre que sempre chamou minha atenção, de tão precária.
O sinal abre e ele, sem mais rodeios, pega as duas sacolas. “Pesadas pra burro- comenta- O senhor vai agüentar até em casa?” Insisto que sim. Atravessada a avenida, nos despedimos. Meu cargo parece mais leve, de tanto aliviado dentro de mim por aquele encontro inesperado, porque tão raro. Inesperado? Nem tanto assim. A alma, mais leve, começa a lembrar não poucos casos de pessoas gentis, no meio da massa dos apressados, indiferentes e até hostis. Chego até a pensar que os outros me considerem como mais um dessa massa.
Dizem que o sorriso é contagioso. Talvez, também a frieza o seja. Desde que comecei a freqüentar ambientes das chamadas pessoas de luta, não entendo porque o sorriso é tão raro. Abundam risos, escasseiam sorrisos. Será que para ser de luta é preciso assumir uma postura de superioridade, como de quem mora nas altas esferas do saber e do poder, guardando segredos que o povo simples nem pode imaginar? Será que está ai uma das explicações da dificuldade de conquistar mais companheiros? Ninguém é atraído por gente que vive sempre angustiada. Gostei de um cartaz que estava numa sala e que dizia que é preciso ser duro, sem perder a ternura.
Quando criança, eu aprendi que o sorriso faz as flores desabrocharem. Nesta fé, vou juntar luta e carinho. Seja o que for.


